O ex-atacante belga, aposentado desde outubro de 2023, acumulou 126 partidas pela seleção nacional
Eden Hazard concedeu entrevista à Stake durante a Copa de 2026 e não poupou opiniões sobre os temas que dominam o torneio: apostou na Bélgica como finalista, defendeu Kevin De Bruyne de qualquer cobrança por legado, apontou Mbappé como provável artilheiro e comparou Lamine Yamal a si mesmo nos primeiros anos de carreira.
O ex-atacante belga, aposentado desde outubro de 2023, acumulou 126 partidas pela seleção nacional, com 33 gols, foi eleito segundo melhor jogador da Copa de 2018 e integrou a seleção do torneio naquele ano. No Chelsea, clube onde viveu a melhor fase da carreira, fez 352 partidas e 110 gols antes de ser transferido ao Real Madrid em 2019 por cerca de 150 milhões de euros.
A conversa com a Stake foi a mais aberta que Hazard deu desde que encerrou a carreira, com opiniões sobre José Mourinho no Real Madrid, Xabi Alonso no Chelsea, Cole Palmer, Estêvão e o goleiro de Cabo Verde, que o belga citou como exemplo do tipo de descoberta que torna a Copa diferente de qualquer outro torneio. A entrevista completa com Eden Hazard está disponível no blog da Stake e cobre desde as apostas da Copa até os bastidores da relação do ex-jogador com o futebol atual.
Para um clube especial, você precisa do “Special One”
Uma das respostas mais diretas da entrevista veio quando Hazard foi perguntado sobre a chegada de José Mourinho ao Real Madrid. O belga trabalhou com o português no Chelsea entre 2013 e 2015, período em que foi eleito melhor jogador da Premier League na temporada 2014-15, e sua avaliação do ex-treinador não deixou margem para dúvida: “Para um clube especial, você precisa do Special One. O José é um treinador que combina com o Real Madrid. Ele já conhece o clube e os jogadores vão respeitá-lo. Ele é um vencedor, eu ganhei títulos com ele. Sabe gerir um grupo e também vai saber proteger os jogadores da imprensa. Mal posso esperar pra ver como vai ser, seria ótimo se ele trouxesse um troféu.”
A frase “para um clube especial, você precisa do Special One” é o tipo de linha que circula nas redes sociais independentemente do contexto da entrevista, e resume a posição de Hazard com a clareza de quem conhece os dois lados da equação: o clube e o treinador. Mourinho ganhou a Liga Espanhola com o Real Madrid na temporada 2011-12, além de uma Copa do Rei, e conquistou a Liga dos Campeões pelo Inter de Milão em 2010. O retorno ao clube representa uma aposta do Real Madrid num treinador de perfil completamente diferente do modelo Ancelotti que dominou o clube na última década.
De Bruyne e a questão do legado
Kevin De Bruyne disputa sua quarta Copa do Mundo aos 35 anos, tendo marcado gols em três das quatro participações, com quatro assistências em 16 aparições no torneio. A BBC o listou entre os dez jogadores que podem estar disputando sua última Copa, ao lado de Messi, Modric, Cristiano Ronaldo e Neymar. A pergunta sobre legado foi inevitável.
A resposta de Hazard foi uma das mais contundentes da entrevista: “Ele já provou muita coisa. O Kevin é um dos melhores jogadores com quem já joguei e não tem mais nada a provar. Olha os números dele, falam por si. A gente sabe do que ele é capaz, e ele é um dos melhores meias há vários anos, tanto no clube quanto na seleção. Agora ele só precisa aproveitar esta Copa do Mundo e tentar trazer a taça pra casa, se possível.”
A defesa é significativa porque vem de quem dividiu o mesmo grupo por anos: Hazard e De Bruyne fizeram parte da chamada Geração de Ouro belga, que chegou às semifinais em 2018 e foi eliminada pela França, 1 a 0, num confronto que encerrou a campanha mais longeva da seleção belga em Copas do Mundo.
Sobre aquela geração, Hazard rejeitou a narrativa do fracasso com uma clareza que surpreende: “Claro que a gente queria ganhar. Tínhamos um time fantástico, uma geração muito boa, isso é certeza. Mas não ganhamos porque a França nos venceu, é assim mesmo. Foi decidido por detalhes, mas temos muito orgulho de nós mesmos. Basta ver a reação das pessoas quando voltamos, comemoramos todos juntos. É isso que conta no fim: poder celebrar aquela Copa do Mundo maravilhosa. Acho que as pessoas não guardam mágoa da gente e nós tentamos fazer elas sonharem.” A frase “nós tentamos fazer as pessoas sonharem” reaparece mais de uma vez na entrevista, como fio condutor da visão que Hazard tem do futebol.
A Bélgica de 2026 e o técnico que ele conhece bem
Hazard foi perguntado até onde a Bélgica poderia chegar no torneio. A resposta foi a que o torcedor belga esperava, mas com uma nuance real: “A Bélgica, eu espero! Por que não enfrentar a França de novo? Poderia ser um grande jogo. Não vai ser fácil, mas espero que eles cheguem à final e, por que não, ganhem a Copa do Mundo. Acho que a Espanha também vai longe, vamos ver.”
Quando pressionado a escolher uma zebra do torneio, Hazard foi ainda mais direto: “A Bélgica, claro. Tem muito talento no nosso elenco. Acho que a gente pode dar uma surpresa! Temos uma boa mistura de juventude e experiência. É só uma pena que nenhum dos irmãos Hazard esteja nela.”
O técnico da seleção belga nesta Copa é Rudi Garcia, mesmo treinador com quem Hazard conquistou a Ligue 1 pelo Lille em 2010-11. A ligação entre os dois vai além da história em campo: “Conheço bem o Rudi. Ganhamos um título juntos. Ele é um bom treinador, sabe unir um grupo e sabe vencer. Eu até liguei pra ele pra dar umas dicas.” A revelação de que Hazard telefonou ao técnico durante a preparação para o torneio diz algo sobre o nível de envolvimento do ex-jogador com a seleção mesmo depois da aposentadoria.
Sobre o equilíbrio entre veteranos como De Bruyne e Romelu Lukaku e a nova geração representada por Jérémy Doku, Hazard foi preciso: “Ah, o Jérémy é bem bom, né? Tentei ensinar umas coisas pra ele. Falando sério, são todos muito fortes, mas é como equipe que eles vão conseguir vencer. Temos bons jogadores em todas as posições e, se o Kevin e o Romelu estiverem em forma, isso pode fazer a diferença, com certeza.”
Lamine Yamal e a memória do próprio começo
A pergunta sobre Lamine Yamal trouxe uma resposta pessoal que poucos esperavam. O atacante do Barcelona, candidato à Bola de Ouro da Copa segundo as casas de aposta, foi comparado por Hazard a si mesmo nos primeiros anos de carreira, quando o belga chegou ao Lille ainda adolescente e foi eleito melhor jovem da Ligue 1 nas temporadas 2008-09 e 2009-10. “Me lembra um pouco quando eu comecei a jogar. Eu tinha mais ou menos a mesma idade e todo mundo esperava muito de mim. Mas, no fim das contas, se ele se divertir do jeito que sabe dentro de campo, dá pra ver ele fazendo uma grande Copa. É o tipo de jogador que o torcedor adora ver. O futebol é isso: você tem que se divertir e fazer as pessoas sonharem.”
A comparação tem respaldo nos números. Yamal terminou a temporada europeia de 2024-25 como um dos principais criadores do Barcelona e chegou à Copa como segundo colocado na Bola de Ouro de 2025, perdendo o prêmio para Ousmane Dembélé. O próprio Yamal admitiu, em seu canal no YouTube, que naquele dia havia acreditado que venceria: “Para ser honesto, naquele dia achei que ia ganhar. ” Dembélé venceu, mas o atacante espanhol enquadrou a experiência com maturidade: “Acredito que foi bom para mim que o Dembélé tenha vencido, para que eu pudesse me desenvolver. Talvez não fosse o momento certo para mim.”
O Observatório de Futebol do CIES, por sua vez, apontou Yamal como o melhor jogador do mundo naquele período em seu próprio ranking estatístico, com pontuação máxima de 100,0, à frente de Mbappé (98,6) e Pedri (97,5). A divergência entre os dois sistemas de avaliação (o da France Football, que premiou Dembélé, e o do CIES, que apontou Yamal) resume bem a dificuldade de definir quem é o melhor quando os números e os votos apontam em direções diferentes.
Chuteira de Ouro e o nome que Hazard não esqueceu
Quando perguntado sobre quem levaria a Chuteira de Ouro do torneio, Hazard não fechou questão, mas deu uma direção clara: “Pessoalmente, eu prefiro um jogador que dá show, que dribla, que se diverte… Mas nesta Copa do Mundo eu consigo ver o Mbappé terminando como artilheiro.” A ressalva veio logo depois: “Não esquece do Dembélé, ele é firme! É difícil dizer. Vamos ver quem ganha a Copa do Mundo. Ainda tem vários candidatos.”
A disputa pela Chuteira de Ouro inclui também Harry Kane e Erling Haaland, mas o próprio Hazard elencou a França como a seleção que mais o impressionou até o momento da entrevista: “Eu diria a França. Quando eu era mais novo, sempre assistia aos Bleus. Tinha a camisa do Zidane. Eles começaram muito bem o torneio. São claramente um dos favoritos e não decepcionaram na estreia. Principalmente lá na frente: Mbappé, Doué, Dembélé, Olise… Sinceramente, é bem impressionante.”
Cole Palmer, Estêvão e o Chelsea sem Hazard
A seção da entrevista dedicada ao Chelsea produziu algumas das respostas mais cuidadosas de Hazard, que claramente não quer que suas palavras sejam interpretadas como comparações diretas com seu próprio legado no clube. Sobre Cole Palmer, o belga foi claro: “Não gosto muito de comparações, porque o futebol era diferente na minha época, outros adversários, outro estilo. Ele não precisa se comparar comigo; tem tudo pra fazer o próprio nome e espero que seja no Chelsea.”
Palmer foi deixado de fora da Copa por Thomas Tuchel após uma temporada abaixo de seus próprios padrões no Chelsea, com 11 gols e três assistências em 34 jogos, depois de ter marcado duas vezes na final do Mundial de Clubes de 2025 contra o PSG.
Hazard reconheceu o paradoxo: “Quando você vê do que ele é capaz, é claramente uma pena pra ele. Além disso, sabemos que ele pode fazer a diferença numa final, como no Mundial de Clubes. Mas, no fim, a escolha é do técnico.” O próprio Palmer reagiu à exclusão com uma linha que Hazard certamente reconheceria: “Não estou chorando por uma decisão que não posso mudar, e espero que os meninos cheguem até o fim.”
Sobre o Estêvão, atacante brasileiro contratado do Palmeiras, Hazard elogiou com cuidado: “Ele é jovem, tem que dar tempo a ele. A primeira temporada dele foi razoável. Além disso, ele vem do Brasil, então tem aquela qualidade nos pés. Pode trazer aquela ginga, aquela velocidade também. Eu gosto dele, é uma pena que não tenha podido disputar a Copa do Mundo… Isso é duro pra ele, mas espero que volte mais forte.”
O goleiro que Hazard não nomeou mas descreveu
Um momento menos comentado da entrevista foi a resposta de Hazard sobre goleiros decisivos, quando comparado Emi Martínez a Thibaut Courtois. O belga partiu do óbvio (Courtois é belga, “tem um lugar especial para mim”) para uma observação que captura bem o espírito desta Copa: “Mas numa Copa do Mundo as coisas são diferentes. Olha os goleiros de Cabo Verde ou do Catar… Também penso nos do Japão ou do México. É muito bom descobrir jogadores novos assim.”
A referência a Cabo Verde não precisava de nome: Vozinha, goleiro de 40 anos que disputava a segunda divisão portuguesa pelo Chaves antes do torneio, tornou-se o goleiro mais seguido nas redes sociais durante a Copa de 2026, superando Courtois, Neuer e Alisson. Após a eliminação de Cabo Verde, o goleiro acumulava mais de 25 milhões de seguidores no Instagram, e registrou 18 defesas ao longo do torneio. É exatamente o tipo de história que Hazard descreveu sem nomear: um jogador que faz as pessoas sonharem.



