Flamengo e Palmeiras vêm sendo os protagonistas do futebol sul-americano nos últimos anos
A eliminação na Libertadores não pode ser analisada apenas pelos três pênaltis perdidos. O problema passa por decisões administrativas, continuidade de trabalho e pela comparação inevitável com o principal concorrente brasileiro dos últimos anos.
Sou flamenguista e reconheço o tamanho do Flamengo. Temos elenco, torcida, receita, estrutura e potencial para disputar qualquer competição da América do Sul. Justamente por isso, a eliminação diante do Estudiantes incomoda ainda mais. Não perdemos apenas uma semifinal. Estamos, mais uma vez, assistindo ao Palmeiras demonstrar uma consistência administrativa que o Flamengo ainda não conseguiu transformar em padrão.
É preciso ter conscienciosidade para reconhecer isso.
Conscienciosidade, na psicologia da personalidade, envolve organização, disciplina, responsabilidade, planejamento e capacidade de reconhecer erros para corrigir o comportamento. No futebol acontece algo semelhante: uma administração consciente não pode avaliar apenas aquilo que deseja acreditar. Precisa observar os resultados, comparar decisões e corrigir aquilo que não está funcionando.
E a comparação com o Palmeiras hoje é inevitável.
Abel Ferreira está no clube desde 2020. Nesse período, conquistou 11 títulos e tornou-se o treinador com mais troféus da história palmeirense. São duas Libertadores, dois Brasileiros, Copa do Brasil, Recopa, Supercopa e quatro Campeonatos Paulistas. O Palmeiras passou inclusive por 2025 sem títulos, quando perdeu Brasileiro e Libertadores justamente para o Flamengo, e não desmontou o trabalho por causa disso. Em 2026, voltou a vencer o Paulista e agora está novamente numa final de Libertadores.
Isso se chama repertório acumulado.
No cérebro, repetição acompanhada de aprendizagem cria modelos mais eficientes de resposta. No futebol, acontece algo parecido no nível organizacional. Uma comissão técnica mantida durante anos acumula memória sobre jogadores, adversários, competições, crises, decisões erradas e soluções que funcionaram. Não significa que manter um treinador indefinidamente seja sempre correto. Significa que continuidade, quando acompanhada de competência, produz conhecimento institucional.
O Palmeiras construiu isso com Abel.
O Flamengo interrompeu justamente quando começava a construir algo semelhante com Filipe Luís.
Filipe assumiu o profissional em setembro de 2024. Em pouco mais de um ano, ganhou a Copa do Brasil de 2024, Supercopa, Campeonato Carioca, Libertadores e Campeonato Brasileiro de 2025. Foram cinco títulos em 16 meses. Tornou-se o primeiro na história do Flamengo a ganhar a Libertadores como jogador e treinador.
Então veio 2026.
O início foi ruim, houve derrotas na Supercopa e na Recopa, e a administração decidiu demiti-lo. A forma como isso aconteceu diz muito: Filipe Luís foi dispensado horas depois de o Flamengo vencer o Madureira por 8 a 0 e garantir vaga na final do Campeonato Carioca. Dois meses antes, o próprio clube havia renovado seu contrato até o fim de 2027.
No seu lugar entrou Leonardo Jardim.
Eu sequer acompanhava de perto o trabalho de Jardim antes de sua chegada ao Flamengo. Ele tem currículo europeu, foi campeão francês com o Monaco e passou por diferentes clubes, então seria injusto tratá-lo como alguém sem história. Mas uma coisa é currículo. Outra é aquilo que entrega no contexto específico do Flamengo.
E o que vimos contra o Estudiantes foi muito pouco.
O adversário ficou praticamente todo o segundo tempo com dez jogadores. O Flamengo teve quase 75% de posse de bola e, segundo o próprio Jardim, criou apenas duas situações de gol. A equipe girou a bola, encontrou um bloco baixo e não conseguiu produzir soluções suficientes para chegar à final.
É aqui que entra novamente a questão cognitiva.
Flexibilidade cognitiva é a capacidade de perceber que uma situação mudou e adaptar rapidamente a estratégia. Quando o Estudiantes perdeu um jogador aos quatro minutos do segundo tempo, o problema do jogo mudou. O Flamengo precisava alterar velocidade, ocupação de espaço, presença dentro da área e maneira de atacar aquele bloco.
A resposta demorou.
Não estou dizendo que Leonardo Jardim seja responsável pelos três pênaltis perdidos. Isso seria simplista. Estou dizendo que o Flamengo teve mais de 40 minutos de superioridade numérica para evitar que a classificação fosse decidida nos pênaltis.
E não conseguiu.
Agora o Palmeiras enfrenta justamente o Estudiantes na final.
Não considero correto afirmar que o título já esteja ganho. O Estudiantes eliminou o atual campeão da América e merece respeito. Mas, olhando para qualidade individual, profundidade de elenco, experiência recente e estrutura, considero o Palmeiras superior ao adversário argentino. O time paulista tem uma oportunidade enorme de conquistar mais uma Libertadores.
Na prática, nós abrimos esse caminho.
O Flamengo poderia estar naquela final. Tinha elenco para isso, jogava em casa e enfrentou durante grande parte do segundo tempo um adversário com um jogador a menos. Se o Palmeiras conquistar a Libertadores, será impossível não olhar para trás e perceber o tamanho da oportunidade desperdiçada.
O problema maior, porém, não termina nesta semifinal.
O Flamengo possui potencial financeiro e esportivo para construir uma hegemonia. Mas potencial não ganha campeonato sozinho. Administração ganha.
O Palmeiras vem demonstrando nos últimos anos uma capacidade maior de preservar processos, absorver temporadas ruins e manter uma direção esportiva relativamente coerente. O Flamengo continua apresentando decisões bruscas justamente quando deveria construir continuidade.
Retirar Filipe Luís depois de tudo o que havia conquistado e substituí-lo por Leonardo Jardim foi uma decisão da administração. Hoje, depois desta eliminação, essa decisão precisa ser novamente avaliada.
Não porque Filipe Luís fosse infalível.
Não era.
Mas porque ele havia conquistado cinco títulos em 16 meses, incluindo Brasileiro e Libertadores, conhecia o clube profundamente e ainda estava construindo sua trajetória como treinador. Demitir um profissional com esse repertório depois de dois meses ruins exige que o substituto entregue algo claramente superior.
Até agora, eu não vi isso.
O Palmeiras, nosso maior concorrente nacional nesta fase recente, entendeu algo que o Flamengo ainda precisa assimilar: grandes projetos não podem ser reconstruídos toda vez que aparece uma dificuldade.
Reconhecer isso não diminui o Flamengo.
Conscienciosidade também é reconhecer quando o concorrente está fazendo algo melhor.
Primeiro reconhecemos.
Depois damos a volta por cima.


